Harvey Weinstein, o produtor símbolo do machismo de Hollywood

Compreenda o caso do produtor que despertou diversas denúncias sobre o machismo no cenário cinematográfico.

 

Por Juliana Oelsner

Foto Harvey Weinstein
Harvey Weinstein (Foto: Reprodução)

Harvey Weinstein é um grande produtor de cinema, co-fundador da Miramax Films e ex-diretor da The Weinstein Company. As duas empresas são responsáveis pela produção de filmes como Pulp Fiction (1994), Chicago (2002), O Lado Bom da Vida (2012), entre outros. Weinstein é também o protagonista de uma série de denúncias de assédios e abusos sexuais ocorridos desde os anos 80. A enxurrada de relatos surgiu a partir de matérias publicadas no New York Times e no The New Yorker, em outubro deste ano. Nas matérias foram descritos 14 casos, mas o número é muito maior. E a repercussão desta publicação segue até hoje com o surgimento de novas denúncias ou pronunciamentos de pessoas relacionadas ao mundo do entretenimento. A situação motivou outras mulheres a denunciar abusos ocorridos com diversos outros profissionais do cinema.

Na última semana, Uma Thurman (atriz protagonista de Kill Bill e Pulp Fiction) publicou uma foto em seu Instagram, com uma legenda na qual desejava “Feliz Dia de Ação de Graças” para todos, exceto para o produtor. A atriz também contou que foi vítima de abuso sexual, mas que não estava pronta para falar sobre o assunto. Ainda complementou afirmando, para o produtor: “estou feliz por estar acontecendo devagar, você não merece uma bala”.

Desde a publicação das reportagens no The New Yorker e New York Times, já foram mais de 40 acusações contra Harvey Weinstein, incluindo a de atrizes como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow e Lupita Nyong’o. A maior parte dos relatos revela um caráter predatório nas atitudes de Harvey Weinstein, que costumava convidar as mulheres para quartos de hotéis, aparentando reuniões de trabalho. O mesmo comportamento se seguiu por 30 anos, mas, por que só agora tudo veio à tona?

A culpabilização e silenciamento das vítimas de abuso sexual

Vivemos numa sociedade patriarcal e machista, não podemos negar. Somos ensinadas a nos calar, a nos culpabilizar e naturalizar a violência. Quando uma mulher tem força e coragem de se pronunciar, acusações e busca por justificativas não faltam. Independentemente do local que ela ocupa na sociedade, sempre surge alguém para amenizar os acontecimentos.

O trauma decorrente de uma situação de violência pode ser vivenciado durante anos ou até mesmo pela vida inteira. Dessa forma, quando alguém fala sobre tais experiências isso pode servir de gatilho e trazer várias memórias dos momentos em que foi violentada. É como reviver o passado. Isso dificulta que as mulheres se sintam confortáveis para se pronunciar. Quando falamos da indústria cinematográfica, precisamos pensar ainda na repercussão que uma simples frase pode ter. Qualquer atriz que realiza uma denúncia acaba sendo exposta pela mídia em algum nível e, na maioria das vezes, a mídia não fica do lado das vítimas.

Entretanto, essas não são as únicas questões que impedem as denúncias. No caso de Harvey Weinstein, ele tinha um grande poder de decisão nas produções cinematográficas. Existia uma relação de poder não só pelo fato de ser um homem, mas também pelo seu papel dentro do cinema. O medo de retaliações, de não conseguir mais papeis em filmes e de ter uma carreira inteira boicotada dificultaram que as vítimas viessem a público e contassem sobre suas experiências de abuso.

Harvey Weinstein é só a ponta do iceberg

Este caso foi uma exceção e também a revelação de um problema muito maior. As denúncias contra profissionais da área são significativas e sintomáticas. Entretanto, é raro que tenham o mesmo destino de Harvey Weinstein, que foi expulso da companhia que fundou com o irmão e está sendo investigado pela polícia.

Raramente, os famosos acusados de violência sofrem alguma forma de punição. Isso é notável quando vemos situações como a da atriz Amber Heard, que denunciou Johnny Depp por violência doméstica. Atualmente, Johnny Depp tem um papel de destaque na franquia Animais Fantásticos e Onde Habitam. A atriz até abriu um processo contra Johnny Depp e, apesar de possuir fotos e vídeos comprovando as agressões, não conseguiu ir até o fim e um acordo foi feito.

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Pôster de divulgação do filme Animais Fantástico: Os Crimes de Grindewald. À direita, Johnny Depp no papel do bruxo Grindewald. (Foto: Divulgação, Warner Bros)

Casey Afleck já foi acusado e processado por abuso sexual de duas mulheres em 2010. Novamente, um acordo foi feito e o processo não chegou ao fim. O que ele ganhou com isso? O Oscar de Melhor Ator em 2017.

Outro caso a ser destacado é o do filme Último Tango em Paris (1972). O filme é famoso pela “cena da manteiga”, na qual ocorre penetração anal utilizando manteiga como lubrificante. O diretor Bernardo Bertolucci e ator Marlon Brando combinaram esta cena sem informar a atriz Marina Schneider. Ela passou a sua vida inteira denunciando a agressão sexual, porém nunca foi levada a sério. Na época, tinha apenas 19 anos, já Marlon Brando, 48.

A verdade sobre este caso só veio à tona em 2013, a partir do depoimento do diretor em uma entrevista. Bertolucci conta que havia pensadona cena anteriormente, mas a atriz não foi avisada, pois o mesmo não queria uma encenação de Marina Schneider, mas sua expressão real. Portanto, essa cena é a gravação deum estupro, que é assistida e aplaudida pelo público.

Esses são casos que parecem distantes da realidade do Brasil, mas podemos citar aqui o ator José Mayer, acusado de assédio sexual pela figurinista Su Tonani. O caso gerou comentários e mais comentários acerca da postura do ator. Alguns afirmavam que a figurinista estava tentando ganhar fama em cima da denúncia, discurso muito comum quando mulheres relatam abusos de pessoas famosas.

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Emocionada. Emocionada pela construção de um novo normal, de um novo tipo de postura que busca transformar a sociedade para um berço mais caloroso para todas e todos. Um movimento de mulheres, de todos os departamentos dentro da Rede Globo de televisão, unidas pela mudança da normalidade. Para dizer não ao que por tanto tempo foi neutralizado por medo. Nós, atrizes e diretoras, que temos voz, nos tornamos realmente fortes quando nos vimos unidas com todas as mulheres da empresa. Nos posicionamos em torno da ideia de sororidade. De que #MexeuComUmaMexeuComTodas. De que, em algum momento, não vai mais importar onde você está na escala de poder hierárquico. Você, mulher, será abraçada por todas nós. Porque é só assim que a gente fica forte. Eu, Camila, hoje, me senti empoderada pela força de cada uma de vocês. Sou muito grata por poder fazer parte desse passo. Que ele se estenda por todo lugar. Que vocês mulheres que nos viram em luta, sintam-se fortes para reagir sempre. Juntas, unidas. Não contra alguém em especial, mas pelo bem estar de todos.

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Na época, funcionárias da Rede Globo (entre elas, atrizes famosas, como Camila Pitanga) se reuniram em protesto, utilizando camisetas com a frase “mexeu com uma, mexeu com todas”. Apesar disso, José Mayer ainda foi defendido por colegas de trabalho.

Até quando?

Num cenário como este, uma pergunta não sai da cabeça: até quando essa será a realidade das mulheres?

Essas situações servem para levantar o debate sobre o machismo e a violência contra a mulher, assim como para discutir formas de combater o problema. Mostram a rede de apoio criada entre mulheres e reforçam a necessidade de suporte para que as denúncias sigam em frente. No caso de Harvey Weinstein, o número de denúncias foi assustador, mas o de pronunciamentos em apoio às vítimas foi inspirador. O mesmo ocorreu com as atrizes globais que apoiaram Su Tonani.

Entretanto, é essencial que os homens também se posicionem, compreendendo que as mulheres estão num local de maior vulnerabilidade. É comum que seja exigido posicionamento das mulheres e se esqueçam dos homens, que estão num local mais favorável para tal.

E já que estamos falando da indústria cinematográfica, é fundamental falar da necessidade de mulheres ocupando posições de liderança e decisão nas produções audiovisuais. Pouquíssimas são diretoras e roteiristas que comandam as decisões dentro de um filme. Para ilustrar, a primeira (e única) mulher a ganhar um Oscar por Melhor Direção foi Kathryn Bigelow, em 2010. Ou seja, em 89 edições de Oscar, apenas uma mulher ganhou o prêmio nessa categoria.

Um dos mecanismos que auxiliam na manutenção do machismo é a mídia. Enquanto filmes, novelas e outras produções trouxerem as mesmas histórias, representando mulheres por meio de estereótipos, situações como as citadas neste texto serão frequentes. Precisamos discutir o machismo, precisamos de mulheres contando suas histórias, precisamos mudar essa realidade. E a cada Harvey Weinstein derrubado é um passo que damos em direção a isso.

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